Um fato comum em muitas relações profissionais e relacionamentos conjugais é a dificuldade em dar e receber feedbacks.  E olha que tem material a dar com o pau sobre o assunto. Mas o que se percebe nessas relações não diz respeito à questões técnicas do como falar, mas sim da postura armada, da indisposição do receptor e da inabilidade do emissor em desarmar o receptor. Até porque quando recebemos um “feedbacknegativo”, que se propõe a nos ajudar a perceber o que muitas vezes não percebemos, normalmente sofremos um certo desconforto.

Mesmo que para alguns esse desconforto seja sutil, para outros nem tanto. A impressão é que essas pessoas perderam a zona de conforto, ou seja, o ego reclama.  Em um ambiente profissional, temos situações por exemplo, onde o indivíduo está apaixonado pelo seu ponto de vista e investe suas energias em uma determinada linha. Quando este individuo é chamado na sala do diretor e recebe ofeedback que seu entusiasmo é algo contagiante e extremamente bem-vindo, mas a linha que escolheu não condiz com os anseios da direção e é necessário que ele mude de foco, parte do indivíduo recebe o feedback com otimismo (a parte mais consciente), mas outra parte mais subconsciente esta se contorcendo internamente.

Quando esse feedback vem de forma mais direta então, do tipo: acorda João! Não é por ai!”a parte consciente é reduzida dramaticamente e sobra o inconsciente se contorcendoEsse indivíduo tente a sair com pensamentos do tipo:  “ele não entendeu nada! Aqui não somos ouvidos! Eles vão ver!.

A parte que chama atenção neste drama é a dificuldade da grande maioria em reconhecer a interferência do ego neste seqüestro da consciência.

Racionalizando…

Se olharmos de forma fria e racional para o assunto não é difícil reconhecer as incoerências do nosso próprio comportamento. Antes o sujeito estava iludido, apaixonado pelo seu ponto de vista, agora graças a intervenção dofeedback, ele recebeu uma “real” e se desiludiu. Em que momento o sujeito se encontra em melhor situação? Enquanto desfrutava o doce sabor da ilusão ou quanto percebe com mais clareza o problema e reconhece que estava iludido pela paixão ao seu ponto de vista? Racionalmente não é difícil chegar à conclusão de que ele se encontra em melhor situação desiludido do que iludido, se aplicarmos esse tipo de autorreflexão veremos que estamos indo por um caminho que não deveria e o feedback na verdade ajudou, mas na prática não é bem assim que costuma acontecer.

Como desarmar o receptor?

Um dia destes, escutei uma metáfora brilhante sobre o tema. Estava dando uma palestra sobre a diferença do gestor que esta seqüestrado pelo seu vício emocional e conseqüentemente limitado a um pobre conjunto de soluções e de outro gestor que vibra na freqüência de suas competências emocionais e acessa a possibilidade de uma gestão por complementaridade, onde diferenças são valorizadas.  No fim da palestra, um participante veio até mim e comentou que desenvolveu um jeito rápido de desarmar o receptor de um feedback. Ele disse: “digo a meu colaborador o seguinte: Vou lhe entregar um pote de ouro, mas com uma fina camada de merda ao redor, espero que você seja suficientemente consciente para escolher a parte que realmente lhe interessa”.

Há se pudéssemos nos lembrar desta metáfora mais vezes, quando estamos com pessoas que são diferentes de nós e por isso mesmo não agem como agiríamos, ou quando ouvimos feedbacks que não são da forma que gostaríamos, mas continuam a ser um pote de ouro.

Quantas vezes somos seqüestrados pela fina camada ao redor e perdemos o pote de ouro? Esta é parte do jogo do ego, nos distrair com as aparências. Somos traídos por nossas intenções que respondem mais aos anseios do orgulho ferido de não dar o braço a torcer do que aos nossos reais anseios na relação com os outros.

Pense um pouco em como tem lidado com seu relacionamento conjugal ou com os membros de sua equipe. Seus atos correspondem as suas intenções? Lembre-se do jogo do ego, afinal como diz o ditado, de bem-intencionados o inferno está cheio.

Até mais,

Márcio